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30 entregas de comida, 100 pacotes de e-commerce e R$ 200 por dia: a rotina apressada dos entregadores por app em SP

Entregadores de aplicativos fazem protesto em frente à Câmara Municipal de São Paulo Celso Tavares/G1 O dia ainda nem tinha amanhecido quando o entregador Vi...

30 entregas de comida, 100 pacotes de e-commerce e R$ 200 por dia: a rotina apressada dos entregadores por app em SP
30 entregas de comida, 100 pacotes de e-commerce e R$ 200 por dia: a rotina apressada dos entregadores por app em SP (Foto: Reprodução)

Entregadores de aplicativos fazem protesto em frente à Câmara Municipal de São Paulo Celso Tavares/G1 O dia ainda nem tinha amanhecido quando o entregador Victor Emmanuel Araújo, de 28 anos, saiu de casa, em Interlagos, na Zona Sul de São Paulo, para trabalhar. Era por volta das 4h quando, no caminho, ele sofreu um acidente de moto. Ele não se feriu, mas o veículo ficou destruído. “Graças a Deus comigo não aconteceu nada, mas a moto acabou com a frente toda. O prejuízo chegou a R$ 1,7 mil”, contou. A cena, que ocorreu em abril deste ano, resume uma rotina comum para quem vive de entregas por aplicativo em São Paulo. Entre dezenas de pedidos por dia, jornadas que podem passar de 14 horas e renda que gira em torno de R$ 200, entregadores por aplicativo em São Paulo relatam uma rotina marcada por pressa, cansaço e riscos nas ruas. Entenda o novo consignado CLT, que vai valer para entregadores e motoristas de app No Dia do Trabalhador, profissionais ouvidos pelo g1 dizem que alternam entre o delivery de comida — com cerca de 30 corridas diárias — e entregas de e-commerce, que podem ultrapassar 100 pacotes por dia, em um trabalho que exige velocidade constante e pouca margem para erros. Jornadas longas A rotina varia conforme o tipo de entrega. Em dias de delivery de comida, o tempo de trabalho pode passar de 10 ou até 14 horas, dependendo da demanda. Já em entregas de e-commerce, os trabalhadores retiram dezenas de pacotes de uma vez e percorrem rotas pela cidade. “Se for delivery, a gente faz umas 30 entregas. Agora, se for e-commerce, chega a mais de 100 no dia”, contou o entregador Victor Alves da Silva, de 24 anos. Segundo ele, que trabalha como entregador de apps há sete anos, a renda diária gira, em média, entre R$ 200 e R$ 250. O valor ainda precisa cobrir custos como combustível, manutenção da moto e alimentação. Victor Emmanuel trabalha há cinco anos com aplicativos e diz que a carga horária já foi ainda mais pesada quando atuava no iFood e 99. Hoje, com entregas de e-commerce, afirma conseguir trabalhar entre 6 e 8 horas por dia. Antes, quando fazia delivery de comida, precisava ficar até 16 horas na rua para alcançar a mesma renda de R$ 230 diários. “Para conseguir fazer a renda que eu faço hoje, eu tinha que ficar pelo menos de 12 a 16 horas direto na rua”, disse ele. Segundo o entregador, ele acumula mais de 7 mil entregas em aplicativos como iFood e 99, e mais de 27 mil de e-commerce. Ricardo Pereira de Sousa, de 27 anos, afirma que começou no delivery durante a pandemia, após perder o emprego em uma metalúrgica. Desde então, passou a depender exclusivamente dos aplicativos para se sustentar. Arquivo pessoal Já Ricardo Pereira de Sousa, de 27 anos, afirma que começou no delivery durante a pandemia, após perder o emprego em uma metalúrgica. Desde então, passou a depender exclusivamente dos aplicativos para se sustentar. “É meu trabalho principal, minha fonte de renda. Eu me sustento, sustento a família, coloco a comida na mesa”, disse. Ele, que mora com a esposa e o pai em Interlagos, na Zona Sul da capital, afirma ter feito quase 30 mil entregas ao longo dos anos, somando diferentes plataformas. Rotina de risco Os riscos fazem parte da rotina. Acidentes, trânsito intenso e trabalho debaixo de muito sol e chuva são apontados como os principais perrengues. Victor Alves conta que sofreu uma queda após ser fechado por um carro. Ele machucou a clavícula e ficou cerca de 45 dias sem trabalhar. Além dos acidentes, o tempo parado também pesa — e afeta diretamente o ganho. Ricardo afirma que, no delivery, o entregador depende do tempo para ganhar dinheiro. Esperas de 15 a 20 minutos em restaurantes podem comprometer boa parte da jornada. “Se você sai para trabalhar quatro horas e fica uma hora esperando pedido, isso atrapalha muito”, afirmou. Victor Alves trabalha como entregador de apps há sete anos, a renda diária gira, em média, entre R$ 200 e R$ 250. Arquivo pessoal Ele também relata situações em que o cliente demora para retirar o pedido, mesmo acompanhando a entrega pelo aplicativo. “Às vezes a pessoa paga R$ 5, R$ 8 e acha que pode demorar 10, 15 minutos para descer. Isso atrapalha a nossa diária”, disse. Pressão psicológica A pressão não é só física. Os entregadores também relatam desgaste mental constante, provocado pelo trânsito, pela cobrança por tempo e pela instabilidade do trabalho. Victor Alves afirma que o impacto psicológico é um dos pontos mais pesados da rotina. “O que mais pesa é um conjunto da obra. O cansaço físico, o cansaço mental. O trânsito da cidade de São Paulo é teste para cardíaco. Muito tempo no trânsito, o cara acaba ficando meio doido”, diz. Ricardo Pereira também aponta a pressão diária de sair para trabalhar sem saber exatamente quanto vai ganhar — e, principalmente, se vai voltar para casa em segurança. Victor Emmanuel trabalha há cinco anos com aplicativos e diz que a carga horária já foi ainda mais pesada quando atuava no iFood e 99. Arquivo pessoal “A gente sai na incerteza se vai voltar ou não. O nosso maior lucro diário é voltar bem para casa”, afirma. Segundo ele, a rotina ainda é marcada pela falta de empatia de motoristas, clientes e estabelecimentos. “A parte ruim é a discriminação na rua, a falta de empatia. Parece que hoje em dia a compaixão do próximo não existe mais”, diz. Já Victor Emmanuel destaca que o desgaste também vem da espera e da sensação de invisibilidade no dia a dia. Ele conta que o tratamento diferenciado aparece em olhares e na forma como os trabalhadores são atendidos. “Já começa pelo jeito de falar, jeito de andar, cor, jeito de se vestir. Você percebe nos olhares”, disse. "Você fica esperando lá como se não existisse. Às vezes 30, 40 minutos — e já teve caso de ficar uma, duas, três horas esperando um pedido." Projeto dos apps A regulamentação do trabalho por aplicativos também aparece nas falas dos entregadores. Ricardo diz que, em março, foi a Brasília protestar contra propostas em discussão no Congresso. Para ele, exigências como cursos e novas obrigações podem dificultar a vida dos trabalhadores se não vierem acompanhadas de benefícios concretos. “Eles querem regulamentar, mas não querem beneficiar. Se fosse para regulamentar e dar algum benefício, seria viável, mas essa troca não está justa”, diz. Ele compara a situação com taxistas, que, segundo ele, precisam cumprir exigências, mas têm vantagens como isenções e possibilidade de circular em faixas exclusivas. “A gente já tirou habilitação. Se pagamos a CNH, é porque está apto a fazer entrega”, afirma. O advogado Leandro Bocchi, especialista em Direito do Trabalho, afirma que motoristas e entregadores de plataformas hoje não são empregados pela CLT, mas profissionais autônomos que dependem de regulamentação específica. Segundo ele, a categoria está em uma “zona cinzenta”, sem proteção clara. Para Bocchi, o debate central é saber se a autonomia dos entregadores é real ou se há controle das plataformas por meio de algoritmos. “Hoje, esse controle e fiscalização sobre o trabalhador não precisam mais ocorrer de forma presencial. Podem ocorrer de forma remota, por vezes até mais severa e rigorosa”, afirma. Segundo o advogado, projetos em discussão buscam criar direitos mínimos, como remuneração mínima e contribuição previdenciária, mas também sofrem críticas por manterem o trabalhador como autônomo por plataforma, sem vínculo CLT. 1º de julho - Manifestação e paralisação de entregadores de aplicativo, em São Paulo. Entregadores de aplicativos fizeram protestos em cidades brasileiras nesta quarta-feira (1º). A mobilização nacional da categoria, que teve forte crescimento ao longo da pandemia do novo coronavírus, é por melhores condições de trabalho Amanda Perobelli/Reuters “É urgente estabelecer uma regulamentação clara e adequada, principalmente por uma questão de segurança jurídica”, diz Bocchi. A proposta de regulamentação dos apps mantém entregadores como autônomos, sem vínculo pela CLT, mas prevê alguns direitos mínimos, como remuneração mínima, contribuição ao INSS e regras de transparência sobre os ganhos. O projeto é criticado por trabalhadores, que dizem que ele cria obrigações sem garantir proteção suficiente, como segurança, limite de jornada e renda estável, mantendo a categoria em uma zona intermediária, sem direitos completos. Em abril, o ministro da Secretaria de Relações Institucionais (SRI), José Guimarães, afirmou que a análise do projeto que trata da regulamentação dos aplicativos de transporte e entrega só deve ocorrer após as eleições de outubro, diante da falta de consenso entre os setores envolvidos. Liberdade Apesar das dificuldades, os entregadores também citam pontos positivos do trabalho por aplicativo, como flexibilidade, pagamento semanal e possibilidade de organizar melhor a rotina. Ricardo afirma que, quando trabalhava com carteira assinada, recebia menos e tinha dificuldade para organizar as contas. Hoje, diz que a remuneração semanal ajuda a pagar dívidas, guardar dinheiro e ter mais tempo com a família. Mas ele ressalta que a liberdade vem acompanhada da ausência de direitos e da exposição diária ao risco. Victor Alves resume a rotina como um “conjunto da obra”: pouca corrida em alguns dias, entregas longas em outros, cansaço físico, cansaço mental e instabilidade. “O trânsito de São Paulo é teste para cardíaco. Muito tempo no trânsito, o cara acaba ficando meio doido. Pesa muito o emocional, o mental”, afirma.

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